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Pajama time: o trabalho após a agenda

A última consulta terminou. O consultório esvaziou, o telefone parou de tocar e você já está em casa.

O expediente acabou, pelo menos oficialmente.

Depois do jantar, porém, aquela lembrança surge: puts, ainda faltam preencher duas evoluções, ou alguns laudos pendentes ou um caso para revisar. Tem uma receita para conferir, um relatório pela metade, e por aí vai…

Você abre o notebook, seja no escritório ou no sofá, muitas vezes já de pijama.

É daí que vem a expressão pajama time: o tempo que médicos e outros profissionais de saúde passam fora do expediente concluindo prontuários e resolvendo tarefas administrativas que não finalizaram no dia de trabalho.

O nome parece engraçado, a rotina, nem tanto.

Quando o consultório vai para casa

Algumas situações não podem esperar, mas preencher documentos à noite não deveria fazer parte dessa lista.

Aquela tela clara ligada, o estresse de encarar mais uma sequência de pendências e a cabeça ainda presa no trabalho não combinam muito com a higiene do sono que orientamos aos pacientes com tanto afinco.

O problema é quando trabalhar após o expediente deixa de ser uma exceção, nos acostumamos, e chega um ponto em que trabalhar em casa até parece uma boa ideia para evitar uma bola de neve (ou de papel hehehe).

E num determinado momento, o momento em família, da academia, estudos ou de ficar deitado no sofá, é sacrificado.

Você está em casa, mas uma parte de você ainda está no consultório.

Não é só falta de organização

Muitas vezes, a primeira reação é achar que o problema é falta de organização. Tentamos encaixar os prontuários nos intervalos, usamos modelos mais curtos, prometemos não acumular. Ajustamos uma coisa aqui, outra ali, mas o resultado costuma ser parecido.

Em um levantamento internacional da Medscape, cerca de metade dos médicos relatou gastar entre 10 e 24 horas por semana com burocracia e tarefas administrativas. No Brasil, 27% dos participantes informaram dedicar mais de 25 horas semanais a esse tipo de trabalho.¹

Outro estudo, realizado em consultórios de quatro especialidades nos Estados Unidos, mostrou que os médicos dedicavam aproximadamente 27% do tempo ao contato direto com pacientes e 49% ao prontuário eletrônico e a outras atividades administrativas. Entre aqueles que também registraram o trabalho fora do consultório, foram relatadas mais uma a duas horas de trabalho noturno, principalmente com tarefas relacionadas ao prontuário.²

Os números não podem ser transportados automaticamente para toda a realidade brasileira, mas a sensação é bastante conhecida por aqui.

Portanto, o pajama time não é apenas um problema de produtividade individual. Também é consequência de um modelo no qual a quantidade de trabalho administrativo nem sempre cabe dentro do tempo reservado ao atendimento.

A outra opção é digitar enquanto o paciente fala

Para não levar o prontuário para casa, muitos médicos tentam concluir toda a documentação durante a própria consulta, o que funciona até certo ponto.

O problema é que paciente e computador passam a disputar atenção. Enquanto alguém conta uma história que pode ser difícil, íntima ou longa, precisamos decidir entre manter o contato visual ou registrar os detalhes antes que sejam esquecidos.

Quem nunca soltou um “pode continuar, estou ouvindo” enquanto digitava uma frase no prontuário?

Na maioria das vezes, o examinador realmente está ouvindo, mas a experiência do paciente pode ser outra. Uma conversa mediada por uma tela não tem a mesma presença de uma conversa olho no olho.

Isso não diminui a importância do prontuário. O registro clínico é parte fundamental do cuidado, garante continuidade assistencial e documenta o raciocínio e as decisões tomadas. A questão é outra: quanto da consulta precisa ser consumido pela tarefa de escrever?

E se o médico não precisasse começar do zero?

Boa parte do trabalho noturno não é, propriamente, tomar decisões. É reconstruir algo que já aconteceu.

É lembrar a sequência dos sintomas, recuperar os antecedentes mencionados, organizar resultados e transformar uma conversa de vinte ou trinta minutos em um documento claro e coerente.

É justamente aí que a inteligência artificial pode ajudar.

A proposta não é deixar a máquina atender, raciocinar ou decidir pelo médico. Também não é gerar um prontuário e assiná-lo sem conferir. A responsabilidade pela documentação continua sendo do profissional.

A diferença é não precisar começar com uma tela em branco.

Se a consulta foi transcrita e organizada em uma primeira versão, o médico pode concentrar seu tempo no que realmente depende dele: conferir se o conteúdo está fiel, corrigir eventuais erros, ajustar o raciocínio clínico e validar a conduta.

Um estudo com 144 médicos encontrou redução do tempo total no prontuário, do tempo gasto com as anotações e também do pajama time após a adoção de escribas virtuais. A tecnologia não eliminou a necessidade de revisão, mas reduziu o trabalho de transformar a consulta em texto.³

Recuperar tempo não precisa significar atender mais

Existe uma tendência curiosa, que é: sempre que uma tecnologia economiza alguns minutos, logo pensamos em como preencher esse tempo com mais trabalho.

Se sobraram dez ou quinze minutos, talvez caiba outro paciente. Se preencher o prontuário ficou pronto mais rápido, talvez dê para abrir mais um encaixe.

Mas o tempo recuperado não precisa ser imediatamente devolvido à produtividade.

Ele também pode servir para ouvir o paciente com mais calma, explicar melhor uma conduta e até terminar o expediente no horário.

Essa é a ideia por trás do Vokkari Med: usar a IA para reduzir a parte repetitiva da documentação, sem tirar do médico o controle sobre aquilo que foi registrado.

No aplicativo ou na versão web, a consulta é gravada, transcrita e organizada em um modelo clínico adequado à especialidade. Os modelos podem ser ajustados para se aproximar ainda mais da rotina de cada profissional. E receitas, atestados e outros documentos da consulta podem ser gerados a partir do conteúdo registrado, sem a necessidade de recomeçar tudo do zero.

O médico continua conduzindo a consulta, construindo o raciocínio, tomando decisões, revisando e validando o documento. O Vokkari ajuda a organizar o que foi conversado para que o profissional não precise reconstruir tudo mais tarde.

Não se trata de fazer medicina mais depressa. Trata-se de tornar a rotina um pouco mais humana e de devolver tempo a profissionais que se dedicaram anos à formação médica — e não para passar mais de 25 horas por semana preenchendo papelada.

Pijama é roupa de descanso

O pajama time se tornou tão frequente que quase parece uma característica inevitável da profissão. Como se terminar prontuários à noite fosse simplesmente parte do pacote.

Não precisa ser.

A tecnologia não vai resolver, sozinha, todos os problemas da rotina médica. Também não fará desaparecer a burocracia nem transformará toda consulta em um processo perfeito.

Mas ela pode ajudar a evitar que uma parte tão grande do trabalho acompanhe o médico até em casa.

O prontuário é importante. A revisão médica é indispensável. O descanso também.

E pijama deveria voltar a ser apenas pijama.

Referências

  1. Kane L, Schubsky B. International physician compensation report 2021: do US doctors have it best? Medscape. 2021 Aug 20 [cited 2026 Jul 29]. Available from: https://www.medscape.com/slideshow/2021-international-compensation-report-6014239
  2. Sinsky C, Colligan L, Li L, Prgomet M, Reynolds S, Goeders L, et al. Allocation of physician time in ambulatory practice: a time and motion study in 4 specialties. Ann Intern Med. 2016;165(11):753-60. doi:10.7326/M16-0961.
  3. Rotenstein LS, Melnick ER, Iannaccone C, et al. Virtual scribes and physician time spent on electronic health records. JAMA Netw Open. 2024;7(5). doi:10.1001/jamanetworkopen.2024.13140.